por Jackeline Guimarães
Nos últimos trinta anos, a sociedade mundial tem passado por significativas mudanças, inclusive na forma de vê o meio ambiente. A mais forte percepção dessas transformações ocorreu, principalmente na década 70, quando esta mesma sociedade começou a questionar seus valores e os modelos de desenvolvimento até então em voga. Isso tudo, em função da própria constatação da crescente escassez dos recursos naturais, como uma consequência dos níveis de poluição no meio ambiente.
Dessa preocupação, inspiraram-se as célebres conferências em Estocolmo, em 1972 e mais recente, ECO-92, no Rio de Janeiro. Com os temas lá discutidos, fortaleceu-se o paradigma do desenvolvimento sustentável, através do qual foi gerado o documento conclusivo denominado de Agenda 21. Nele foram apresentadas metas de preservação do Meio Ambiente para até o século XXI. Dentre os capítulos da Agenda 21, tem-se o capítulo 18 onde são destacadas as providências a serem tomadas para o recurso natural Água.
Os prognósticos quanto à reserva de água nos próximos vinte e cinco anos são dramáticos. Segundo estudiosos sobre o tema, em 2025 boa parte da população mundial estará vivendo em áreas com recursos hídricos escassos. Essa escassez decorre, muitas vezes, da destruição gradual e do agravamento das condições de poluição, além da própria alteração climática do mundo.
Como sobrevivem os rios sergipanos em meio à Poluição
Rio Paramopama
Da embocadura à nascente, depara-se com problemas ambientais de toda ordem. Problemas que merecem atenção do poder público nas três instâncias de governo.
- A dragagem retirada de areia do fundo do rio ainda compromete a reabilitação da vida marinha. O ato danoso tinha como justificativa o Projeto Catamarã, que prometia colocar São Cristóvão na rota do turismo, gerando emprego e renda. O projeto, ironicamente, foi inviabilizado pelo assoreamento provocado pela dragagem.
- Outro problema é o lançamento de lixo nos mangues e águas do rio. Infelizmente, subsiste como ponto pacífico na sociedade brasileira a idéia de que “todo esgoto leva ao mar”.
- Um terceiro problema do “nosso rio esgoto” são as enchentes. Estas ocorrem sem periodicidade e inundam parte da cidade baixa e toda a área do centro comercial.
Rio Sergipe
O rio Sergipe nasce em Nossa Senhora da Glória, passa por 26 municípios e desagua no Oceano Atlântico, beneficiando cerca de um milhão de sergipanos, o que corresponde a 56,6% da população do Estado. Ao longo do percurso, 16 outros rios e vários riachos vão lançando suas águas na calha principal do rio Sergipe.
Essa bacia drena 16,7% do Estado. A criação do dia do rio Sergipe partiu de um projeto de lei da então deputada estadual Ana Lúcia Menezes, em 2004. A partir daí, começou a ser discutida uma data significativa, que chamasse a atenção da sociedade e das autoridades para a problemática enfrentada pelo rio. Especialistas descobriram que em 3 de novembro, no início do século XX, o rio foi reconhecido como sergipano e que banhava a capital.
O alto índice de poluição e provas de desrespeito ao rio Sergipe foram constatadas na margem do rio em Aracaju: muito lixo, pneus e volumosos canais de despejo de esgoto.
Soluções
Segundo Osmário Santos, coordenador da Frente em Defesa das Águas de Sergipe, apesar de todas as ações educativas e chamados de alerta, a poluição no rio Sergipe não tem diminuído nos últimos anos. “Um dos grandes motivos da poluição é que o lixo continua sendo jogado nos canais, manguezais e rios. É algo assustador. Já encontramos até guarda-roupas e televisores. E também tem a falta de esgoto sanitário”, alertou Osmário.
Ele lembra que quando foi iniciado o projeto Aracaju de Tototó, “todo mundo achava que o rio estava às mil maravilhas”. No entanto, especialistas na área ambiental foram consultados e provaram, através de estudos técnicos, que o rio estava altamente poluído. “Estamos fazendo um trabalho interessante junto às escolas da rede púbica e particular, que pretende despertar a preocupação das novas gerações para as questões ambientais”, acrescentou Osmário, lembrando que todo dia 3 de novembro estudantes chamam atenção da comunidade para a questão através do abraço simbólico no rio Sergipe.
Outros eventos são realizados nesse sentido. Em novembro, deverá ser lançado o CD “Tributo ao Rio Sergipe”, com compositores sergipanos. “Pela primeira vez em seis anos, uma luz está aparecendo na escuridão. O governo foi atrás de financiamento e já temos obras visíveis em execução que vão diminuir a poluição no rio Sergipe”, comemorou Osmário.
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) investirá mais de R$ 303 milhões no esgotamento sanitário da Grande Aracaju, passando de 34% para 65% o volume de esgoto tratado. Em Aracaju, Barra dos Coqueiros, São Cristóvão e Nossa Senhora do Socorro estão sendo executadas obras que ampliam a oferta de água e levam atendimento dos serviços de esgotamento sanitário a uma parte significativa da população no quadriênio 2007/2010. Já o Programa Águas de Sergipe, orçado em US$ 117 milhões a serem financiados pelo Banco Mundial, vai fortalecer as políticas públicas voltadas para o meio ambiente e contribuir para a revitalização da bacia do rio Sergipe.
Na área de saneamento, será construída a barragem do rio Poxim, realizando o esgotamento sanitário em Aracaju e em Socorro e será executada a terceira etapa da ampliação da Adutora do São Francisco (orçada em R$ 143 milhões).
Rio Vaza Barris
O rio Vaza-Barris é um rio perene, com cerca de 450 quilômetros de comprimento que atravessa a Bahia, onde nasce passando por Sergipe e desaguando no litoral sergipano, no local denominado Mosqueiro.
Atividades Impactantes
Atividade Agro-industrial- uso de agrotóxicos, desmatamento, lançamento de dejetos de animais, descarte de embalagens de agroquímicos, etc;
Atividade Urbana- lançamento de esgotos domésticos, disposição inadequada de resíduos sólidos;
Atividade de Mineração- degradação de áreas, lixiviação e disposição inadequada de rejeitos, processos de beneficiamento mineral;
Atividade Industrial- lançamento de efluentes industriais, emissões atmosféricas.
As principais fontes de poluição dos recursos hídricos da bacia do rio Vaza Barris referem-se às atividades de agricultura e pastagem, que geram processos erosivos com consequente assoreamento dos rios e alteração da qualidade das águas. Por outro lado, as atividades urbanas e industriais lançam substâncias que podem alterar a sua qualidade da água através da introdução de elementos nocivos ao meio. Constata-se que a região está bastante alterada pela ação antrópica, cujas atividades provocam desequilíbrio aos ecossistemas naturais.
Rio Poxim
O rio Poxim, cujo ponto de confluência é próximo à embocadura do Rio Sergipe, forma com este o estuário no qual está assentada a cidade de Aracaju. Ele é hoje uma das mais relevantes preocupação hídrica do governo do estado. Desde 1958 tem sido uma das fontes de suprimento de água para Aracaju. Atualmente, respondendo por 20,10% da demanda de água da capital.
Toda a infraestrutura de saneamento na área é precária, principalmente em termos de rede de esgotos, de disposição de lixo e de coleta das águas pluviais. O bairro Eduardo Gomes, por exemplo, ainda dispõe de rede de esgotos e de sistema de galerias, enquanto no Rosa Elze há somente galerias e, nos outros, nenhuma infraestrutura. Sem falar que nas comunidades Parque dos Faróis e Rosa Elze existem invasões (áreas de favelas) na faixa de domínio do rio, o que acentua ainda mais o problema da poluição.
Foram constatadas nesses lugares a presença de lixo nas margens do rio e de plantas aquáticas, principalmente Jacinto Aquático e Junco. O quadro de doenças entre os moradores da área, principalmente daqueles que são pescadores, vai de micoses (40%); verminoses (33,33%); disenteria (20%) à esquistossomose (6,67%).
A destinação do lixo também é precária nas áreas de invasões, tanto no Parque dos Faróis como no Rosa Elze. Para estas duas comunidades, as estatísticas sobre a disposição do lixo denotam que: 45% são dispostos em área abertas; 33% são queimados; 8% enterrados e somente 12% são coletados pelos municípios.
O trecho do Rio Poxim que compreende a área alagada, possui uma vegetação emergente situada próxima aos bairros Parque dos Faróis, Tijuquinha, Rosa Elze e Eduardo Gomes. Além dessas comunidades, cujo contingente populacional supera 35.000 habitantes, existem também criatórios de bovinos e suínos. Desse modo, ficam evidentes que as principais causas de sua degradação são: o desmatamento de suas margens e nascentes; a exploração irregular das margens e da calha; o despejo de efluentes domésticos, industriais, agroindustriais, e, sobretudo, a ocupação inadequada de seu entorno.
Em decorrência desse aporte de esgotos, lixo e águas pluviais ao rio:
Na estiagem, há maior penetração solar que na fase de chuvas, o que é plenamente justificável em função da possibilidade de maior turbidez da água. Entretanto, a presença de sólidos e dessa turbidez na água irão de algum modo afetar a capacidade fotossintética daquele ecossistema.
Segundo estudos da Administração Estadual do Meio Ambiente (ADEMA), o Rio Poxim é o mais poluído do Estado. A sujeira é tanta que todas as praias que recebem a água desse rio são consideradas impróprias para o banho. Ele percorre vários bairros da capital sergipana, onde a maioria não possui uma rede de saneamento correta, e todos os dejetos que saem das casas, sejam eles orgânicos ou artificiais, são jogados diretamente no Poxim. O Conjunto Beira Rio, no Bairro Inácio Barbosa, há muito tempo, era um dos mais prejudicados pela poluição do rio. O mau cheiro de tudo que o rio trazia em seu trajeto incomodava toda a população.
Todavia, segundo o morador Odyr da Costa, a situação do rio tem mudado, e o mau cheiro não é mais problema, já que fizeram uma nova rede de esgoto. Já no cais próximo a sua casa, o morador Fernando Dantas, que pescava no Rio Poxim relatou: “Estou aqui só para passar o tempo, esse é um rio quase morto, só consigo pegar pequenos bagres ou baiacus”.
Principais de recursos hídricos em Sergipe
Desperdício de água por parte da população e pelo sistema de abastecimento.
Poluição dos rios Paramopama, Vaza Barris e do riacho Besta, por esgotos domésticos, resíduos sólidos, agrotóxicos, entre outros.
Lixeira a céu aberto localizada na estrada do Saco, a cerca de 2 km do rio Vaza Barris, e a aproximadamente 500 m do loteamento Lauro Rocha.
Deficiência no abastecimento de água para a população, principalmente para as comunidades localizadas na chamada “cidade baixa”, a qual reclama da qualidade da água, considerada “dura” e com muito cloro. Já na cidade alta, o abastecimento é prejudicado no período de chuvas, quando ocorrem inundações nas instalações de captação.
Soluções
Através de recursos financeiros do Fundo Estadual de Recursos Hídricos, a Semarh desenvolveu o Projeto Recuperando Nascentes e Municípios, que visa recuperar as 18 nascentes do Rio Poxim, do Siriri Vivo e do Cajueiro dos Veados. Essa medida irá regularizar o curso de água da região, promover o equilíbrio ambiental e o uso sustentável dos recursos naturais. Todo o trabalho de recuperação de nascentes e matas ciliares é realizado em parceria com o Ministério Público, a Sociedade Semear e a Universidade Federal de Sergipe.